No prefácio e no terceiro capítulo do livro “Modernidade Líquida” de Zygmunt Bauman, inevitavelmente tive a sensação de estar sentindo um perfume filosófico atemporal. E essa ainda trazia consigo um misto de saudosismo e frescor aristotélico, marxista e pós-frankfurtiano.
Certo dia assisti a uma apresentação na TV Cultura de Sergio Paulo Rouanet que disse que para entender o visionário marxista era necessário compreender o mundo não só como ele é, mas como ele pode ser. É necessário, portanto ver a natureza mantida em sua sublime forma, mas dotada de ato e potência.
Se, se a verdade é fluida para Bauman, se o conhecimento é determinado pelo agora, se os sólidos estão derretidos, mas não entraram no estado de sublimação, então pega esse troço e faz um suco. Vamos aproveitar dele o que ele tem a oferecer.
O sólido derreteu, mas não evaporou... ele procura o seu espaço, continua a escorrer até desaguar em outros líquidos até formar a porção grande de um rio, de um oceano. Tudo está interligado. O conhecimento hoje está totalmente emaranhado em redes, imbricado com o devir da sociedade, do indivíduo. São mônadas que se intercruzam.
Para muitos teóricos, é difícil entender ou aceitar tamanha inconstância. Para tanto instauram a chamada crise do conhecimento - até mesmo para se sentirem um pouco mais confortáveis diante de um novo conceito e recuperarem o fôlego na sua zona de conforto ou numa bolha asséptica.
Toda solidez traz a ideia de conforto de segurança. E isto é bom, é muito bom. Mas creio que não vale a pena ficar aprisionado somente a ideias, conceitos e hipóteses que foram criados em determinando momento histórico.
Isso não os invalida. Não, não. Pelo contrário, a história da civilização não percorreu uma avenida reta de piso regular e sim teve que enfrentar ruas, becos, vielas, buracos, subiu e desceu montanhas e sinuosidades... por isso é essencial a manutenção referência da construção do pensamento dos séculos passados.
O que talvez não seja pertinente, seja uma crítica raivosa ou descontrolada ao progresso da técnica (que sempre esteve presente em toda história da humanidade) ou ao conhecimento produzido e compartilhado coletivamente.
Li certa vez numa revista destinada a educação, que a passagem entre o papiro e o códice foi feita de forma lenta. Com o pergaminho a leitura tinha que ser feita linearmente e com o advento do códice, (forma de encadernação) além de uma forma mais ergonômica, permitiu o desenvolvimento e a fruição cultura e do conhecimento por meio de uma leitura mais pontual. Mas essa 'passagem' foi feita de forma lenta e recebeu várias críticas.
Devemos estar nesse hiato de tempo. Sem saber onde o avanço da técnica irá nos levar. Sem saber onde as Tecnologias da Comunicação e da Informação irão conduzir o pensamento humano, o conhecimento. E talvez não saibamos nunca. Não há limites para esse avanço.
Mas como um apreciador do pensamento frankfurtiano e leitor atento dos escritos adornobenjaminianos, mantenho a minha preocupação, assim como Bauman, do que o uso da técnica de forma irresponsável pode trazer tanto a produção do conhecimento quanto à vida em sociedade. Não sei se a palavra/conceito 'alienação' caberia aqui. Talvez a expressão 'reificação do sujeito', conforme Adorno nos brinda, se aplicaria melhor.
A “era da instantaneidade” como cita Bauman (p. 148) não pode nos deixar esquecer de como chegamos atá aqui e nem desvalorizar o esforço de nossos antecessores em construir um edifício filosófico que contivesse a formação cultural da humanidade em prol de uma sociedade mais justa e harmoniosa.
Bauman se mostra um entusiasta da (pós) modernidade, e, assim como eu, lembra que não podemos esquecer, apesar de todo o frenesi e assombro diante do avanço da técnica, que barbáries já foram cometidas em nome do progresso. E talvez tenhamos hoje condições e ferramentas intelecto-culturais para não deixar que aberrações e erros como os feitos no passado, sejam novamente cometidos e que tenhamos toda uma eternidade para nos arrepender.
... é que as vezes quanto mais se sabe, quanto mais se conhece, quanto mais se aprende, mais infeliz se pode ser.
... é que as vezes quanto mais se sabe, quanto mais se conhece, quanto mais se aprende, mais infeliz se pode ser.
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