Professor André Lemos nos dá uma perspectiva de leitura e compreensão sobre as principais características e efeitos da/na sociedade tecnológica a partir de uma ideia/hipótese/conceito de 'recombinação'.
Recombinar é uma marca latente de outro conceito: o de cultura. Toda cultura é híbrida, recombinante. E chama atenção do leitor quando alerta para o fato de que qualquer tipo de cultura quando se fecha em si mesma, quando torna-se uma mônada leibniziana, que se inicia e se encerra em si mesma, está eminentemente natimorta. Leia-se o ideal do projeto iluminista e em parte do 'projeto' do chamado Romantismo alemão.
Este professor trata no texto, a ação do verbo 'recombinar' principalmente para o contexto da cultura, do comportamento e da noção de território. Esse pequeno texto é a minha reflexão sobre esses dois primeiros contextos.
A sociedade tecnológica dá um novo dinamismo a essas noções e exige uma releitura de sua aplicabilidade no campo prático social.
Não sei se Lemos é leitor do frankfurtiano vanguardista, Walter Benjamin, mas os dois concordam que o que chama mais atenção nessa nova configuração social é a 'velocidade'. A velocidade com que se produz informação, a velocidade com que a tecnologia se desenvolve, a velocidade como a sociedade se reconfigura a partir dela. Para Benjamin, a velocidade seria a dádiva e o problema da 'modernidade'. E ele tinha razão.
Para Lemos a tecnologia da comunicação e informação estabelece de certa maneira uma divisão na história (período) do que se entende por era da 'cultura massiva' e da 'cultura pós massiva'. Quanto a cultura massiva ele compreende, assim como a Escola de Frankfurt, o período da sociedade pós revolução industrial até meados do século XX e como cultura pós massiva o advento das tecnologias da comunicação e informação até os dias de hoje.
Tem algo no texto que me incomoda ou me intriga justamente por não estar convencido de tal afirmação ou até por ter uma leitura incipiente sobre o tema: Lemos afirma que “A cultura digital pós massiva não representa o fim da industrial massiva. Por sua vez a industria massiva não vai absorver e 'massificar' a cultura digital pós massiva”.
Eu sou pouco relutante quanto a essa afirmação. 'Peraí' que te digo:
Primeiro temos que analisar o que significa o termo 'massificação'. Por certo não é um termo que atende tão somente a um recorte histórico determinado, mas, devemos admitir, que a sua ênfase, ou a aplicação desse termo foi mais adequada em Marx (quanto a questão da ideologia e da alienação) e nos frankfurtianos (quando uma analise da cultura, da formação cultural e da produção cultural na contemporaneidade).
A grosso modo, 'massificar' significa: Característica das sociedades desenvolvidas, para as quais o nível de vida tende a assumir valores padronizados; uniformização. Mas não podemos esquecer que tanto para Marx quanto para os frankfurtianos, 'massificar' não está ligada somente ao resultado, mas também ao processo formativo.
Dessa maneira 'massificar' é o plano 'arquitetado' em produzir cultura verticalizada como mercadoria inócua ao processo formativo e emancipatório do homem; 'massificar' é também o processo de facilitação ao acesso (acessibilidade) a esses bens culturais. Em termos, se facilita ao acesso desse tipo de cultura inócua e depois se tem uma sociedade reificada por esse consumo, por esse processo. Massificar é tornar massa; é uniformizar comportamentos.
Assim, na minha leitura, no meu ponto de vista (e volto a afirmar que por ser incipiente pode estar totalmente incorreta), a sociedade da informação ela já está massificada e isso pode ser visto com o comportamento dos usuários dessa tecnologia. O que não é massificado são as produções individuais dentro da rede.
Mas como o próprio André Lemos afirma, a cibercultura recombina a cultura e modifica todas as produções culturais em todas as instâncias da sociedade. A televisão hoje em seu conteúdo de programação é uma espécie de reflexo do que está fora dela. É um conteúdo planejadamente massificado em que se repetem fórmulas que dão certo.
Os Reality Shows por exemplo são a oferta de 'fuga' de um comportamento massificado da sociedade da cibercultura. Explico... os reality shows dão tão certo e atingem picos de audiência por oferecer, ao seu consumidor, uma vivência diferente da sua vivência habitual. É uma espécie de 'fuga' da sociedade como ela se vê hoje permeada e por vezes definida por essa tecnologia.
Não é admissível aos confinados qualquer contato com o mundo exterior a aquele e a proibição total de uso de equipamentos eletrônicos ligados à rede ou de comunicação à distância. As pessoas estão lá para interagir e experimentar situações e sensações que só podem ser sentidas, na grandeza de sua totalidade, se na condição face to face. Que situações e sensações são essas: medo, angústia, tristeza, conflitos pessoais, conflitos coletivos, alegrias, tristezas, raiva, frustrações dentre outras tantas.
Você se interessaria por um participante de um reality shou que estivesse fazendo o mesmo que você: twitando ou atualizando o seu blog ou conversando via mensseger, ou mexendo no seu tablet?
Imagine se os chamados 'brothers' estivessem discutindo diariamente do período de confinamento, sobre temas como filosofia política, problemas da educação no século XXI ou sobre Literatura comparada???
Numa reportagem vi que na Europa e nos Estados Unidos existem lugares específicos em que as pessoas pagam para entrar para tentar se 'desligar do mundo lá fora'. É o lugar que eu chamo de 'desintoxicação da conexão'. É um lugar 'mágico' (hahahaha) em que você simplesmente se desconecta, despluga-se. É um ambiente pensado nos mínimos detalhes para que você se sinta relaxado e distante da necessidade de estar 'ligado a' .
Sim, a cultura pós massiva já é massiva. E volto a afirmar que as produções é que são tão distintas. Mas temos que ter cuidado para que essas produções não sejam também massificadas e que não se tornem um substrato de si mesma repetindo-se e repetindo-se.
Vou ali.
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